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Entrevista

  (01/Mai)

Entrevistando o filósofo Eduardo Jardim

 
ENTREVISTANDO O FILÓSOFO EDUARDO JARDIM


Responsável - Will Goya


MINI-CURRÍCULO:
Eduardo Jardim de Moraes é professor de Filosofia na PUC-Rio. Fez o mestrado na PUC e o doutorado na UFRJ. Fez pós-doutorado na Alemanha.


PUBLICAÇÕES ? Alguns dos principais trabalhos publicados:
A duas vozes - Hannah Arendt e Octavio Paz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
Mário de Andrade: A Morte do Poeta. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2005.
Jardim, E. (Org.); BIGNOTTO, N. (Org.) . Hannah Arendt - dialogos, reflexões, memórias. Belo Horizonte: UFMG, 2001.
Limites do Moderno: O Pensamento Estético de Mario de Andrade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.
A Brasilidade Modernista: Sua Dimensao Filosofica. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1978.


ENTREVISTA:


Professor Eduardo Jardim, o que hoje mais lhe interessa na filosofia?

Eduardo Jardim - Meus estudos, em geral, são investigações sobre o contexto contemporâneo, o momento que Hannah Arendt chamou de Mundo Moderno, distinto da Era Moderna, que se iniciou no século XVII e terminou no século XX. Desde que comecei a estudar Filosofia só isso me interessou ? compreender o que se passava. Alguns escritos meus tratam de aspectos da cultura brasileira, especialmente do Modernismo.

Pesquisei a figura e a obra do escritor modernista Mário de Andrade. Tentei entender a visão de Mário de Andrade da cultura brasileira e examinei o Modernismo como um movimento amplo de ideias que engloba a produção cultural no Brasil por quase cem anos. Entendi que a proposta do Modernismo se exauriu e tento examinar o que aconteceu depois dele, na atualidade.

Outros trabalhos que escrevi se ocuparam da obra de Hannah Arendt ? talvez a mais lúcida pensadora da política no século XX. Entrei em contato com sua obra no início dos anos oitenta, em um momento de muitas incertezas políticas e existenciais. Seu pensamento representou para mim um estímulo enorme na investigação da atualidade. Procurei trazer Hannah Arendt para o nosso meio. Cuidei da tradução de parte de sua obra, escrevi nos jornais sobre ela e muitos artigos. Tenho um livro, A duas vozes ? Hannah Arendt e Octavio Paz, ed. Civilização Brasileira, que é um diálogo inventado entre ela e o poeta mexicano Octavio Paz. Fiquei entusiasmado com essa conversa da filósofa alemã, de origem judia, de nacionalidade americana, que investigou a crise da tradição da política, com o grande poeta e ensaísta mexicano, próximo dos surrealistas, observador crítico do universo latino-americano. Por caminhos muito diferentes eles dizem coisas muito próximas, às vezes.

Estou de novo, no momento, escrevendo sobre Hannah Arendt, mas já estou pensando, quando terminar esse livro, em voltar à temática brasileira. Talvez não tenhamos uma tradição importante de Filosofia, mas a força do pensamento se manifesta em muitas áreas da nossa inteligência ? a literatura, sobretudo, mas também, alguns campos das ciências sociais, as artes, o cinema, a música popular.


Sobre o que disse, resuma para os nossos leitores qual é a dimensão filosófica da visão de Mário de Andrade da cultura brasileira, e o que ainda podemos ou precisamos aprender com ele?

Eduardo Jardim - Sob mais de um aspecto, a obra de Mário de Andrade interessa ao filósofo. Em primeiro lugar, ela é riquíssima para se visualizar o retrato-do-Brasil que os modernistas propuseram. Para os estudos de história do pensamento no Brasil, vale a pena acompanhar o modo como ele entendeu o processo de modernização como inserção do Brasil no concerto internacional, como viu a articulação entre a produção intelectual culta e a cultura popular e, como fez uma revisão de todos esses pontos em textos tardios do período final da obra.

Outro aspecto muito rico é sua reflexão sobre a arte, em textos como O artista e o artesão e no curso de filosofia e história da arte, na Universidade do Distrito Federal. São momentos em que o pensamento de Mário de Andrade se apura enormemente.


Falando em Brasil, e no mundo, como caracterizar o momento de crise de valores e de referências que estamos vivendo?

Eduardo Jardim - Acho que essa situação crítica tem duplo aspecto. De um lado, é um momento de desorientação, de perplexidade, são tempos sombrios. De outro lado, coloco a questão: será possível vislumbrar nesse cenário devastado pistas para novas experiências, que não foram ainda exploradas porque estávamos presos aos valores tradicionais? Nas conversas entre Octavio Paz e Hannah Arendt, eles descobriram o seguinte: muitos projetos das gerações anteriores foram arruinados recentemente: a revolução, as utopias sociais, a modernização, todos eles centrados numa confiança absoluta em um mundo futuro. Mas exatamente essa ruptura pode abrir o campo de inéditas experiências, centradas agora em uma valorização do Presente, na intensificação da vida presente. O ocaso do futuro levará a uma busca do presente, afirma Octavio Paz.

Quando acompanho o pensamento de Octavio Paz sobre o ocaso do futuro e de Hannah Arendt sobre a crise da tradição e da autoridade política, chamo a atenção para o fato de que os dois sentiam este momento como de desamparo, mas também como de liberação. Liberação para a intensificação da experiência do presente. Hannah Arendt fala da liberdade como razão de ser da política, insiste na sua indeterminação e espontaneidade; Octavio Paz vê na poesia e na experiência amorosa esta valorização do presente.


Com o fim do futuro e a intensificação do presente o homem moderno mudou sua forma de agir no mundo, abandonando a téchne dos antigos gregos, que era uma visão de arte e vida, para inventar a "técnica" mecânica, independente e descompromissada com os valores humanos. Como você analisa isso?

Eduardo Jardim - Acho Heidegger um filósofo da maior importância. O tema que me parece mais relevante de investigar na sua obra é o da técnica. Heidegger apresenta possibilidades muito ricas de entender nosso mundo ? o da civilização técnico-científica. Ele ensina que temos que estar muito atentos, que é preciso ter os olhos livres dos preconceitos tradicionais, para entender o cenário contemporâneo e a técnica atual que é completamente nova. Não podemos escapar desse seu apelo à reflexão! Às vezes parece que somos tragados por tudo que vem acontecendo e acabamos aderindo a um modo de pensar submetido a critérios técnicos ? uma forma de pensar que é só cálculo. Mas ele nos ensina uma potente disciplina do pensamento, uma espécie de contenção do pensamento, que é o único recurso que temos para resistir à voracidade da técnica.


Sobre essa questão do tempo, para H. Arendt, o homem antigo, cônscio da morte pessoal, encontrava na vida pública uma forma de eternidade: morreria o indivíduo, mas não os seus feitos históricos, porque coletivos. No capitalismo consumista, mecanizado e tecnicista dos nossos dias, e com a perda quase que total da consciência política, da vida e dos valores públicos, os indivíduos vivem como se fossem eternos, em contínuo imediatismo. Pergunto-lhe: como reverter nos homens de hoje a sua noção de tempo, recuperando sua consciência da morte privada e da imortalidade pública?

Eduardo Jardim - Não se tem mais nenhuma perspectiva de imortalidade. Nem do homem individual, nem da espécie humana, nem da alma do homem. Pensa-se que até mesmo o mundo natural está engolfado em um movimento incessante. Há ainda a ameaça de uma catástrofe de que a própria humanidade seria responsável. Penso que o homem não se preocupa com a imortalidade, mas com a sobrevivência, e até disso ele não está muito certo.


Além dos desafios do tecnicismo moderno, como o senhor vê a liberdade do indivíduo na política contemporânea e mais especificamente, os problemas políticos que afligem o povo brasileiro?

Eduardo Jardim - O problema da política é o da liberdade. No Brasil, como em geral, a liberdade é vista na perspectiva liberal como liberdade negativa. A política é concebida como administração, isto é, como uma tarefa técnica. Desconfia-se da política a partir de pressupostos morais. Vê-se ainda a política subordinada à questão social. Em todas essas visões não se considera a dignidade da política.

A maneira como hoje se concebe o que é política merece especial atenção. Primeiro aspecto a se discutir: a liberdade é vista hoje apenas negativamente, como ausência de constrangimentos, como algo privado e individual. Seria preciso recuperar o sentido positivo de liberdade: como iniciativa, como ação, como um exercício de participação pública e coletiva. Segundo aspecto: a política é, em geral, vista como um meio para alcançar objetivos situados fora dela; ela deixou de ter um sentido e passou a ser um mero instrumento. Seria preciso chamar a atenção para o fato de que um aspecto central da vida humana ? a experiência do convívio, da alegria do convívio entre os homens ? se perde nesta perspectiva. Terceiro aspecto a se considerar: a redução da política à moral. Muitas pessoas acham que é preciso submeter os assuntos políticos à moral. Deve-se reagir a essa posição e distinguir dois campos da experiência, a moral e a política, na linha adotada por Maquiavel em O Príncipe. Então seria possível falar de dignidade da política. Outro aspecto ainda precisaria ser discutido: a associação de política e violência. Nada menos político que a violência. Toda vez que a violência se impõe à política, esta desaparece. Um esforço reflexivo seria necessário para entender a natureza da violência em contraste com a experiência política.



     

 
 
Como referenciar: "Entrevistando o filósofo Eduardo Jardim - Entrevista" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 25/05/2020 às 18:09. Disponível na Internet em http://sofilosofia.com.br/vi_entr.php?id=24